A expressão na dança – dicas Por Luciana Arruda
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Luciana Arruda, bailarina e professora nos brinda com mais um belíssimo artigo. Nele ela nos fala de como acrescentar mais expressão à Dança do Ventre. Confira! |
Escrever um artigo sobre expressão é uma ousadia. Como colocar em palavras algo que só existe, e de maneira diferenciada, em cada um e que surge primeiro internamente e depois, externamente?
Vou tentar identificar os elementos que propiciam o surgimento da expressão e assim cada bailarina poderá fazer uso desses elementos incorporando-os à sua dança.
Primeiro é importante deixar claro que a expressão é fator fundamental para uma dança de qualidade. De nada adianta uma técnica lapidada e perfeita, se o rosto e o corpo que dançam não traduzem emoção. E expressão é sinônimo de emoção, na arte.
Para entender, vamos dissociar o velho jargão de que expressão remete apenas à face. Errado. Você pode expressar uma série de mensagens e emoções com todo o seu corpo. Olhos, lábios, ombros, tronco, e principalmente, mãos, a palma das mãos em específico. Além é claro do seu traje, das cores e acessórios, que também enviam uma mensagem.
Agora vamos fazer um exercício: pense em um artista que você admira. Pense nas fotos em que ele sempre aparece, identifique a principal característica desse artista. Certamente irá surgir uma ‘marca’ algo que esse artista tem e que sempre aparece em seus shows e fotos. Ray Charles, meu artista preferido, era cego, usava óculos escuros o tempo todo, mas tinha uma expressão incrível. Reparem em suas fotos: um amplo e largo sorriso. Um jeito de impor os ombros e um andar diferenciado. Ray era especial e sabia disso. Nat King Cole e sua voz impecável, tinha na elegância a sua marca registrada. Mais atual, pense em ‘Seu Jorge’, com seu visual arrojado, sua voz potente e seu olhar penetrante. Maria Bethânia e sua mão para cima, seu olhar vislumbrando o infinito. E assim segue uma sucessão de famosos artistas.
Bailarinas? Lembre-se da expressão da Dina, sua languidez no olhar, suas mãos desenhando um caminho invisível no ar, e a mestra, Jade El Jabel com seus olhos de feiticeira e um sorriso que dificilmente surge, mas quando aparece inunda a sala. Lulu Sabongi é expressiva por inteiro. Isso ninguém pode tirar dela. Lulu tem uma entrega que se reflete desde a maneira como movimenta o cabelo, passando pelas mãos, pelo olhar meio em transe e toda a maneira como seu corpo se movimenta.
Pensando nesses exemplos, é preciso, antes de tudo, um exercício de auto conhecimento. Faça um laboratório de si mesma. Tarefinha da semana: observar-se.
Primeiro, anote em um caderno, quais os comentários que costuma ouvir, que se referem ao seu corpo ou gestual. Como, por exemplo: “como você é delicada” ou “ você é desastrada” ou ainda “você tem um jeitinho de andar...” Anote esses comentários, mas não os conceitue como verdadeiros e imutáveis, ok?! Isso é somente para você ter uma idéia da mensagem não-verbal que costuma transmitir para as pessoas.
Em seguida, anote suas características gestuais internas e externas, do tipo:
- o som do seu riso ou gargalhada, como é? Alto, baixo, sussurrado, exuberante...
- sua respiração - lenta, compassada, acelerada, sem ritmo, profunda, curta...
- a maneira como você se desloca – passos curtos ou longos, rapidamente, devagar, para onde olha, a postura ao caminhar, como movimenta os braços...
- a maneira como você pega objetos – se é delicada, se atrapalha e derruba tudo, se coloca força ou intensidade, se é suave (como segura os talheres, como escreve, como bebe água...)
- como se posiciona em diferentes ocasiões – quando se senta, como fica? Como costuma dormir? Quando está parada, conversando, como costuma ficar?
- Peça para seus pais ou irmãos falarem sobre você (se sorri muito, se fala demais, se é arredia com estranhos) eles são as melhores pessoas para sinalizar, ouça com atenção e não os critique por dizerem o que pensam.
Esses exercícios são apropriados para que você se conheça, se observe e selecione diversos itens tanto externos (como as pessoas te vêem) como internos (como você se vê, se percebe). Faça uma lista de ambos e encontre pontos comuns ou divergências, anote quais prefere para si.
Entenda que o olhar do outro muitas vezes não coincide com o nosso olhar. Isso deve ser encarado com leveza, sem crises ou exigências. Lembre-se: independente do outro, você é única e isso não deve se alterar pela maneira com que os outros nos interpretam.
É aquela história: pergunte para alguém que gosta de mim se eu sou legal, claro, a pessoa dirá que sim. Pergunte a alguém que não me suporta, bem, a opinião será totalmente contrária.
Portanto, tendo anotado esses itens, você pode elaborar um guia gestual para ajudá-la a decifrar e entender suas mensagens e seu comportamento expressivo.
Em seguida, pense em como traduzir isso para a sua dança. Jade El Jabel disse em entrevista para este site algo simples mas surpreendente: “A mulher é na dança o que é na vida.” Ela pede para imaginarmos a mulher sorrindo, transando, parindo. Pense nessas expressões. Não tem como ser menos, disfarçar o que a move. A bailarina
expressiva deve ter isso em mente. Ser, por inteiro, em sua dança.
O primeiro passo é a entrega, e ela só acontece quando a bailarina está totalmente imersa em seu ‘ser cênico’, ou seja, atenta ao palco, música, platéia. O “ser cênico” é um termo utilizado didaticamente em Artes Cênicas, especificamente no Teatro, para denominar a diferença entre sua “pessoa cotidiana” e o “ser cênico”, ou seja, “a pessoa que surge quando se coloca no palco”.
O ser cênico jamais deverá ser igual à sua pessoa cotidiana, pois o palco é uma estrutura dinâmica e elaborada que tem por objetivo trazer o imaginário, o mágico e etéreo para a platéia. Quando estiver no palco, tenha claro em mente que é apenas um momento, assim que seu número acaba, o ser cênico sai de cena. (Leia mais sobre ‘Ser Cênico’ aqui.)
Em seguida, imagine que a música sussurra uma história em seus ouvidos. Você deve reagir às palavras dela com o seu semblante (riso, tristeza, alegria, mistério). Imagine também que cada gesto seu é uma história a ser contada para a platéia. Por exemplo, ao tocar o cabelo, imagine que está embaixo de uma cachoeira, lavando o cabelo. Ou ao esticar os braços e movimentar levemente a mão, que está tentando tocar alguém que se distancia, ou que chama por alguém. Assim é que começa a expressão no corpo. Reagindo à historia que a música traz, e contando ao público o que você ouve/sente.
Lembra-se de que a palma das mãos é fator essencial para comunicar-se. É através dela que você direciona o seu olhar e faz com que o público olhe para você.
Sua face também se expressa. A começar, pelo tipo de maquiagem que você utiliza. (leia mais sobre maquiagem aqui). Sorrir é algo que deve ser espontâneo. Não sei o que é pior: não sorrir, ou fingir que sorri. O riso caricato é feio, superficial e causa desconforto em quem assiste.
Se a música te contar algo alegre, sorria. Se a música te contar uma saudade, uma tristeza, não há porque sorrir. Simples assim.
Como ouvir as histórias que a música conta? Com dois órgãos: ouvidos e coração. Sim, você deve sentir a maneira como seu coração pulsa ao ouvir uma melodia. Faça esse exercício: coloque um rock, dos bons. Depois uma ópera. Depois, uma bossa nova, um samba, um heavy metal. Coloque suas mãos em cima de seu coração enquanto ouve essas músicas e sinta a diferença no pulsar. É assim que, também sua expressão, deve movimentar-se.
Expressão é dinâmica, ela não fica ‘congelada’ e sempre igual. Sinta as nuances da música e modifique sua expressão na medida em que a música modifica a sua emoção.
Tem uma música erudita que, para mim (e para Nietzsche) é perfeita. É do compositor erudito Wagner e se chama ‘Tristão e Isolda’ (faça o download, ouça e inspire-se... ou quem quiser, me envie um e-mail que eu envio a música para vocês.) Essa música tem várias nuances para estudar expressão, pois ela ‘cria’ em nós uma série de sentimentos, passa pela alegria, tristeza, suspense... é ótima para estudo das flutuações de humor e emoção.
Sugestão de musica árabe? Cito três, que para um bom começo, são perfeitas (claro que devemos ouvir muita, mas muita música árabe, de vários estilos, cantores e orquestras).
Para estudo:
‘Oyoun’ (do cd Arabesque Dance), ‘Nadia’ (do cd A Tribute to The Legend Nadia Gamal –Al-Ahram Orchestra) e Al-Houriyah “The Fairy” (do cd Jalilah’s vol.6).
Essas três musicas têm uma gama de nuances que podem estimular sua emoção de maneira completa. Ouça, primeiro de olhos fechados. Depois, (parece bobo, mas juro que funciona) ouça a música olhando-se no espelho e fazendo ‘caras e bocas’ conforme escuta, tentando explorar o que a música te proporciona em termos de emoção. Em seguida, dance. Sem compromisso.
Todos esses itens são um guia para você elaborar o seu conteúdo expressivo. Lembre-se de que flutuações de humor, hormônio, TPM podem modificar a sua expressão e até a sua dança. Permita-se ouvir muita música e treinar muito, para se defender desses contratempos e escorregões emocionais.
A bailarina expressiva é aquela que sabe separar as suas emoções e adaptar-se às emoções do ‘ser cênico’ na medida em que a música pede.
Para ter expressão é preciso antes de tudo, sentir. Por isso, solte-se, desprenda-se dos valores, medos e inseguranças e cria o seu ‘ser cênico’ para sentir-se segura e protegida.
No mais, muita música, muita leveza e dance sem medo de sentir. Permita-se!
Por Luciana Arruda
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