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O feminino do folclore
By Roberta Salgueiro
   
O folclore. É complicado, a gente fica desorientada mesmo. Mas ele é essencial na dança do ventre. Claro, há formas folclóricas mais presentes que outras. Saber saidi, ainda que rudimentarmente, é “mais importante” que saber hagalla. Saber khaligi também vale mais no mercado do que saber somboti. Porque você topa o tempo todo com esses folclores durante uma performance com música clássica, por exemplo.
Mas a real é que pouquíssima gente se interessa de fato pelo aprendizado do folclore. Acham chato, menos bonito, menos majestoso, menos etéreo, menos misterioso. Acham o folclore menos, simplesmente[meu eu interior] Bom, o zar é misteriosíssimo, mas também não sei se ele se encaixa na categoria folclore. Até porque é uma religião. Mas quando rola o ayubi lento, geralmente entra-se no climão místico do zar, então está no campo da dança de palco também, na nebulosa categoria “folclore” [/meu eu interior]
A verdade é que folclore é real demais. Na dança do ventre em geral as bailarinas querem ter uma experiência extraordinária, querem seu momento de super-mulher, que nasceu com unhas feitas, escova perfeita e coberta de jóias até os dentes. No folclore estamos com roupinhas mais simples, sem jóias e com um lenço na cabeça, no mais das vezes. Como eu disse às minhas alunas, geral quer parecer rainha; quase ninguém quer parecer lavadeira.
Bom, gosto muito do visual lavadeira. Curto o feminino cotidiano, que rala, que faz acontecer, que é muito diferente da musa da dança do ventre. A musa inspira e é linda e é quase sobrenatural. Mas a camponesa celebra o dia de trabalho, a família, a colheita, lava a roupa, costura e dança com a parentada. Ela se parece mais comigo. Com as mulheres que ralam o dia todo. Claro, não na roça. Acredito que nenhuma praticante ocidental da dança do ventre busque água em poço distante ou vá lavar roupa no rio. Acho que poucas egípcias também, pois as condições sanitárias devem ter melhorado no Egito . No entanto, trabalhamos duro com outras tecnologias. O trabalho do dia-a-dia é nossa ligação com as formas folclóricas.
Por que não celebrar a mulher palpável? Em minha escola estamos promovendo aulões dentro de um programinha chamado “Estudo de Acessórios”. A idéia é trabalhar o acessório e um estilo musical correlato. Assim, teremos aulões de daff e baladi, bastão e saidi, espada e melodias lentas. Um halewa para quem adivinhar o aulão mais procurado. Isso mesmo, o da espada, sem folclore no meio. Quando atendo o telefone, tento argumentar que os outros dois cursos poderão ser o diferencial dela como bailarina e tal. Mas o folclore não desce, para muitas estudantes.
Fico especulando o porquê. Meu último palpite é esse mesmo. O do feminino que se quer explorar, fazer emergir ou homenagear. Palpites?
 
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